sábado, 24 de setembro de 2011

Sobre rastros...


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Na aldeia Xucuru-kariri, Bahia, ponta do São Francisco, divisa com Pernambuco,  as retomadas dos povos 'sem gramática':  o caminho das  F(r)ESTAS.

Conferências do Estoril 2011 - Mia Couto


A condição para haver mixagens necessárias e mais felizes. Haver encontros, repassar a vida reinventando rastros.
Desejo pelos apagamentos das fronteiras, sempre provisórias, limítrofes, atestadoras de certa visão momentânea.
Afinal, o chinês abriu um restaurante na porta ao lado.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Yuyachkani

Na perspectiva de recuperar rastros, lembro de Yuyachkani, grupo de teatro/vida peruano, que completou 40 anos de existência em 2010. "Yuyachkani"é palavra quechua, que significa ao mesmo tempo, estou pensando, estou recordando. O grupo, que trabalha muitas vezes na perspectiva de contar, para que o passado não morra e se faça cada vez mais presente, em uma simultaneidade de muitos passados, traz em suas encenações a presença forte da língua quechua:
"Lima llaqtatam hamurqani. Kikiypa almay kutichikapunayrayku. Chaynatam rimayaniy quallarinman... Kay hatun llaqtman chayamuptiyqa" (...)
(Vine a Lima a recobrar mi cadáver. Así comenzaría mi discurso cuando llegase a esa ciudad.) Trecho de "Adiós Ayacucho".
Narração de Julio Ortega, em versão teatral de Miguel Rubio, monólogo de Augusto Casafranca.

Vale conferir: http://www.youtube.com/user/yuyachkani#p/u/23/tSajSWtXQxI (Grupo intervindo na cidade)

e trecho da peça "Adiós Ayacucho":
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Ensaios de geopolítica. Este é o nome da oitava 8a. Bienal do Mercosul. Em consonância com as nossas discussões, estudos e questionamentos. Enjoy it.

blog:
 http://bienalmercosul.art.br/blog/

link da página:
http://www.bienalmercosul.art.br/

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A bolsa ou sua vida?

Nesse 17 de setembro milhares de pessoas se posicionaram em frente as bolsas de seus países para exigir uma política econômica mais justa e humana. Este é um chamado para Nova Iorque
Ainda que este outro chamado seja na Espanha, trata de uma questão ampla que diz respeito a todos nós. A quem a situação como está beneficia? Poderia ser diferente? Em meio a tanto caos na educação, na saúde, no nosso sistema de trabalho, o PIB só cresce e as empresas batem recordes de lucros todos os anos... Chamadas também estão sendo feitas no Chile, no Brasil, nos EUA e na Argentina, pois sabemos muito bem quem não está sendo beneficiado.

sábado, 3 de setembro de 2011

POPOL VUH – CRÉDITOS

Aprendi muita coisa ouvindo:

Anna Amélia de Faria
Fernanda Mota
Júlia Morena
Suzane Lima Costa

E lendo:

O texto integral do Manifesto do Partido Comunista e seus vários prefácios naquela edição (que cabe no bolso) da Martin Claret – um livro que foi traduzido por Pietro Nassetti e impresso no verão de 2006.

O Popol Vuh de Gordon Brotherson e Sérgio Medeiros – edição de 2007 que a gente faz caber no bolso com muito esforço, mas que dá prazer de botar na estante, nem que seja só pra ficar olhando o dorso da Iluminuras.

POPOL VUH – Epílogo

Reverberações
“Contemporaneamente”, ao lado das rebarbas também institucionalizadoras do Manifesto Marx-Engeliano, correm soltos movimentos sísmicos PopolVuhlianos:

Rubén Darío – Momotombo
Salarrue – O-Yarkandal
Miguel Angel Astúrias – Leyendas de Guatemala;Hombres de maiz
Alejo Carpentier – Visíon de América, Los pasos perdidos
Jorge Luis Borges – La escritura del dios
Os desenhos para as primeiras edições destas traduções de Diego Rivera
Peças dos Grupos La Fragua (Honduras) Lo’il Maxil (Chiapas)
Poemas de Ernesto Cardenal – Homenaje a los indios americanos
Pablo Antonio Cuadro – no poema El Jícaro
Dolores Prida – Coração da terra: uma história do Popol Vuh
Leslie Marmon Silko – Almanac of the dead
Affonso Romano de Sant’Anna – A grande fala do Índio Guarani Perdido na História
Mário de Andrade – Macunaíma
Jogo de computador em São Francisco de Servando Gonzáles
Filme de Patrícia Amlin
Peça de Luisa Josefa Hernandez
Ecuatorial, música de Edgard Varèse
Grupo musical que assinou filmes de Werner Herzog – Aguirre, Cobra Verde, Fitzcarraldo.
Nome dado, pela guerrilha guatemalteca, às forças contra-revolucionárias – senhores de Xibalba
Autobiografia de Rigoberta Menchú
Traduções para língua européias, para o japonês e para outras língua maias, diversas do quiché.
Fundação, na Guatemala, da primeira universidade Maia
O grupo de Pesquisa de Narrativas Contemporâneas das Américas - Popol Vuh

Segundo INTERMEZZO

Como se desenha a face de um grupo de sujeitos?
Como se agrega a essa face uma expressão potente, demandatória?

Manifesto Popol Vuh/Manifesto do Partido Comunista assim separados por uma barra hipertextual se diferem, para além do binômio tempo-espaço, por modus operandi diversos de organização discursiva –mitopoiesis narrativa friccionando a superfície sensível de uma economia política e/ou de uma sociologia histórica.

Manifesto Popol Vuh/Manifesto do Partido Comunista assim conjuncionados por uma barra hipertextual tendem entre si por forças de: saberes performáticos e comoventes; adesão a zonas de risco; agenciamentos propositivos; abalo e mobilização; ocupação e reinvenção de espaços públicos; inscrição de memória cultural; composição identitária.

POPOL VUH – Ato II

Gente de milho

Comovidos mitopoieticamente, conseguimos visualizar a face de um sujeito ancestral quiché que pode demandar de nós um território. Entramos em um tempo histórico e em um espaço geo-lógico. Suplementos de vetores de força que engendram mulheres e homens feitos de sua própria semente:
Apenas heróis por si mesmos,/Foi-nos dito./Nenhuma mulher os gerou;/Nem foram engendrados/Por Tzakol/EBitol/Alom/E Qaholom/Apenas poder,/Apenas magia/Foi sua construção/Sua modelação/Eles eram homens perfeitos/Eram belos
versos 8.835 a 8.846 e 8.861-8.862

POPOL VUH – Ato I

A origem do mundo como não a/o conhecemos

A vitória de dois irmãos gêmeos terato-formes sobre os senhores de Xibalba, o infra-mundo, prepara-nos para a criação das primeiras pessoas da nossa era.
Narrativa de força temporal cosmogônica e de espaços hipertextuais não operatórios do ponto de vista geo-lógico, mais diagramático.
Os homens de madeira, os de barro e os de milho, depois de serem criados e mesmo antes, interagem no espaço das narrativas que ecoam de Xibalba, como se seus corpos de memória se inter-trançassem para nos sugar pra dentro de suas tramas, em qualquer lugar, em qualquer tempo, sob uma força comovente de re-inscrição.

POPOL VUH – Dando nome aos bois

VUH – Livro
POP – início da vintena no ciclo do ano dos Maias; em quiché – esteira trançada; assento de autoridade e conselho; festa anual que é representada em hieróglifo maia como um trançado.

POPOL VUH – Escrito na tradição da escrita indígena pré-colonial. Narrativa da criação do mundo e dos ancestrais quiché com direito ao território, feitos da matéria mesma de seu território. Mundo esse que teria sido copiado do próprio livro. Mundo escritura feito de escritura. O mais antigo manuscrito conhecido é uma cópia feita em Rabinal (na Guatemala), de outra cópia feita em Chichicastenango (na Guatemala) do original Maia-quiché do século XVI, por sua vez, cópia do mundo (da Guatemala), cópia, por sua vez, do livro.

Versos 8.133 a 8.149 – Eram pessoas de espírito/Senhores de espírito/Quk Kumatz/E Qo Tuha./Senhores de espírito também eram Kiqab/E Cahuizimah/Sabiam/Se guerra haveria./Claramente eles viam/Tudo o que viam,/Se morte,/Se fome/Se luta sucederia/Eles certamente sabiam/E para isso havia um cristal;/Havia um Livro/Popol Vuh eles o chamaram.

Primeiro INTERMEZZO

Quem precisa de manifesto?
O manifesto do Partido Comunista, documento reivindicatório de 1848, produzido na Inglaterra da segunda Revolução Industrial, em alemão, por dois alemães exilados – Marx e Engels, advogam em causa própria e em nome (não menos próprio) da Liga dos Comunistas, deriva da Liga dos Justos, vertente política da Liga dos Fora-da-Lei –inventada por operários alemães na Paris dos anos 30: “O proletário é sem propriedade; suas relações com a mulher e os filhos nada têm de comum com as relações familiares burguesas; o moderno trabalho industrial; a moderna subjugação do capital de todo caráter nacional. As leis, a moral, a religião são para ele meros preconceitos burgueses, por detrás dos quais se ocultam outros tantos preconceitos burgueses”.

Cruzando os dois tempos em dois lugares, de uma outra esquina, muito desajeitadamente, proponho: sujeitos inscritos e escritos em/por certas conjunções geohistóricas de forma subalternizante necessitam desenhar sua face, circunscrever sua existência no mundo, engendrando uma força demandatória que invente esse Quem – que precisa de manifesto!

POPOL VUH – Prólogo

Três décadas após a invasão do território quiché em 1524, na hoje Guatemala, liderada por Pedro Alvarado – tenente de Cortés – a comunidade local se insurge produzindo um título reivindicatório, em sua própria língua maia. A “res” que vindicam: sua terra/sua identidade – que só por uma visada como esta aqui e agora pode ser imaginada como duas coisas diferentes separadas por uma barra hipertextual. Re-clamam – perante o governo colonial espanhol – um privilégio que fora conquistado antes e depois da invasão. Inscrevem, como vetores operatórios de memória, os limites espaço-temporais de seu raio de ação.